Professores de história: o uso do computador na construção do conhecimento histórico escolar.
Cyntia Simioni França*
Cristiano Biazzo Simon*
Diante das transformações tecnológicas, surgem
novas exigências sociais, refletindo-se na educação, impondo questionamentos
sobre o papel da escola. Duas grandes preocupações nessa direção, aqui
colocadas em forma de indagações, nortearam a presente reflexão; a ela se
imbricam e com ela dialogam, a saber: Como as novas tecnologias (em especial o
computador) foram incorporadas à escola? No caso específico desta pesquisa,
como essa ferramenta pedagógica pode contribuir no ensino de história?
Sendo a escola um local de construção do
conhecimento, socialização do saber e troca de experiências, tal situação
coloca a necessidade de debates entre educadores e equipe pedagógica para a
incorporação, de forma crítica, do computador no ensino. Lembrando que a instituição escolar deve
estar à frente em uma sociedade em que as informações são ultrapassadas num
curto espaço de tempo, “não se pode admitir que justamente a escola, local onde
se produz conhecimento, fique à margem da maior fonte de informações disponíveis
e, mais, não seja capaz de orientar sua utilização” (Ferreira, 1997, p. 87).
Este pressuposto implica práticas pedagógicas
focadas não apenas nos conceitos disciplinares, mas na pesquisa e seleção das
informações adquiridas para a resolução de problemas ligados ao seu contexto
social, bem como à produção do conhecimento escolar de história. Portanto,
exige-se um repensar do ensino de história, incompatível com memorização,
repetição de fatos e a condição do professor como exclusivo detentor do saber. Sabe-se que a incorporação dos
computadores na escola altera os papéis dos professores e, consequentemente,
dos alunos, de acordo com a afirmação de Bittencourt (2004), segundo o qual os
alunos estabelecem comunicações interativas e mudanças culturais que geram
indivíduos com diferentes potencialidades de compreender a sociedade em que
vivem.
Neste sentido, as novas linguagens, imersas na
sociedade, possibilitam novas formas de leitura; entretanto, o computador não
pode ser visto apenas como um dos maiores veículos de transmissão de
informações, mas como ferramenta pedagógica no ensino de história, que envolve
procedimentos de problematização, observação, registro, documentação, e até
formulação de hipóteses (CIAMPI, 2003). Convém lembrar que, como qualquer outro recurso
tecnológico, este deve ser entendido como um dos meios alternativos para
construir o conhecimento escolar de história, visto que propicia aos sujeitos
se interligar com o mundo, possibilitando escolas menos autoritárias, cedendo
lugar a ambientes de aprendizagem mais estimuladores e criativos, desde que
submetidos a um olhar crítico, forem considerados apropriados. Desde a década
de 1970, existem propostas de modernização do ensino apoiadas na utilização das
tecnologias de comunicação e informação (TIC), como televisores, rádios,
videocassetes, retroprojetores e informática. Nas instituições escolares,
contudo, sua implementação e utilização estava embasada quase toda em
concepções tecnicistas.
Até meados de 1980, as tecnologias eram entendidas
majoritariamente pela função de aperfeiçoar o processo de ensino, colocadas
como recursos didáticos de apoio ao professor, por serem mais dinâmicas e
atrativas do que a aula expositiva e o clássico uso do quadro de giz. Nessa
perspectiva, propunha-se acabar com as falhas da educação, baseada em
transmissão de informações do professor para o aluno. Assim, as máquinas, pela
capacidade de armazenamento de informações, eram vistas como mais eficientes
para ensinar os conteúdos aos alunos. Inserir as tecnologias nessa perspectiva
é o mesmo que não o utilizar, pois, animar a aula ou o professor, ilustrar os
conteúdos, simplesmente chamar a atenção dos alunos pela visualidade e
sonoridade se resume apenas a um uso instrumental que “esvazia esses recursos de
suas características fundamentais, transformando-os apenas num animador da
velha educação, que se desfaz velozmente uma vez que o encanto da novidade
também deixa de existir” (PRETTO, 1996, p. 114).
A simples incorporação das TIC não gera processos
de inovação, nem mesmo de melhoria do processo de ensino e aprendizagem. “A
utilização dos recursos das tecnologias de informação e comunicação pela escola
não garante mudanças na qualidade da educação. É necessário repensar os
paradigmas existentes para adoção de novas práticas educativas” (GOMES, 2002,
p. 120).
É por esses motivos que o uso do computador é
questionado, sendo necessário que se debatam as implicações no ensino de
história e as mudanças na postura do docente em seu uso. Em outras palavras, o
que de fato modifica é a forma como os professores delas se apropriam e as
utilizam na prática pedagógica para que os processos sejam alterados (COLL;
MAURI; ONRUBIA, 2010). Com
raras exceções, porém, a implantação das novas tecnologias de comunicação e
informação na educação, especificamente no ensino de história, tanto pelos
governos federais quanto estaduais ou setores privados, lamentavelmente ainda é
entendida como simples instrumento didático, “somando-se à perspectiva de que a
educação modernizante deve fornecer um ensino técnico acerca dos princípios
básicos da informática, criando assim uma mão-de-obra especializada” (NOVA,
1999, p. 84). Somente quando essas
máquinas forem entendidas na escola, e a partir de novas práticas pedagógicas,
é que se estará enfocando a aprendizagem dos alunos e desenvolvendo uma
pedagogia de inclusão, contribuindo para a melhoria da qualidade na formação.
Formação continuada como iniciativa do
poder público: teoria ou prática?
Sendo o computador uma tecnologia de uso ainda
recente, quando se trata dessa questão no espaço escolar, a formação continuada
dos professores pode ser um meio para compreender e, especialmente, para
alavancar o processo de inserção das novas tecnologias no ensino atrelado às
metodologias do ensino de história. Tal afirmação nos leva a questionar: Os
professores de história participam de formação continuada? Como é essa
formação? Apenas para uso instrumental ou pautado na perspectiva de uma
abordagem construcionista de educação?
Nesta pesquisa, os professores indicaram haver
programas de formação nesta linha de trabalho vinculados ao Proinfo; 35,29%
deles afirmaram que fazem cursos com os profissionais de informática. Em base
às respostas ao questionamento sobre a atuação do NTE (Núcleo Tecnológico
Educacional) - se foi suficiente ou não -, podem-se fazer pelos menos três
observações: atualmente, não há uma relação direta entre a atuação do NTE e o
uso do computador na escola; há uma distância entre a proposta do governo e a
prática na escola; a atuação do NTE é efêmera e circunstancial, ou seja,
insuficiente.
Os profissionais que trabalham nos núcleos são
capacitados pelo Proinfo para ajudar a instituição escolar em todas as fases do
processo de incorporação das novas tecnologias. Portanto, o NTE atua na escola
no processo de inclusão digital, orientando professores e alunos quanto ao uso
do computador no laboratório de informática, bem como no que se refere à
manutenção do equipamento. Sua função é orientar sobre o uso desses
instrumentos para promover o desenvolvimento dos alunos e a alcançar bons
resultados, não apenas na escola.
Na prática, entretanto, o que pudemos inferir dos
dados coletados é que se limitam a auxiliá-los na questão técnica da
informática e que em nada contribuem especificamente para a prática pedagógica
do profissional de história. Não se propõe aos professores de história uma
metodologia própria, senão a mesma para os professores em geral, independente
da área em que atuam, o que induz a admitir que os métodos de trabalho são
iguais para todas as disciplinas. Neste sentido, podemos caracterizá-los como
cursos de informática sobre a técnica para trabalhar com as máquinas.
Esta constatação, por isso, conduz à seguinte
questão: embora o estado do Paraná tenha uma política de inserção de novas
tecnologias nas escolas, com grupo de assessores técnicos específicos, não
pudemos verificar uma mudança de fato na postura dos professores, já que todos
estão sendo treinados de forma generalista e tecnicista, e não sendo formados
em diálogo com os conhecimentos específicos com que trabalham. Nos cursos
oferecidos, os conteúdos específicos não são atrelados aos conteúdos
pedagógicos das diversas áreas de conhecimento, mas simplesmente voltados à
técnica como um fim em si mesmo e não como meio para alcançar as propostas na
melhoria do ensino; neste caso, o de história.
No caso da escola pública, há sempre um forte apelo
ao Estado para ampliar e melhorar as políticas voltadas à educação; entre elas,
as relacionadas à formação continuada do professor. Isto é certamente válido e
necessário, pois o investimento na formação continuada do professor é um dos
caminhos para melhorar o ensino de história. Contudo, essa política só será
sólida se os programas contarem com a própria demanda dos professores e não por
imposição hierárquica, mas num sistema de construção conjunta de processos
formativos, em que os professores sejam ouvidos, suas experiências consideradas
e compartilhadas com o grupo e motivados a participar efetivamente dos
programas.
É neste sentido que esta pesquisa procurou
estimular um repensar no ensino de história, a partir da valorização da busca
pelo próprio professor e da importância de sua autonomia nesse processo para
fazer frente às mudanças tecnológicas que vêm ocorrendo em nossa sociedade e seus
múltiplos desdobramentos, especialmente ao se dar conta de seu envolvimento na
formação de pessoas também autônomas, dialogando com elas sobre a reprodução da
vida, as necessidades e incertezas vividas em sociedade.
Para que se efetive na prática esta sua autonomia,
é de suma importância que a escola rompa com a divisão dos saberes. E isto só é
possível a partir do momento em que se debata a importância da participação
desses professores e se tornem públicas as discussões com os setores dirigentes
para apresentar suas divergências e suas posições na busca de soluções
conjuntas. Sublinhamos, ainda, a necessidade de debates educacionais que
atinjam principalmente o âmbito da sala de aula, pois é nelas, diretamente
entre alunos e professores, que se constroem as relações mais essenciais ao
processo de ensino e aprendizagem.
Considerações finais
Com as pesquisas e a partir delas, pudemos entender
que a utilização dos computadores pelos professores de história nas escolas
investigadas tem ocorrido de forma alheia às necessidades da comunidade
escolar, principalmente por falta de condições de preparo antecipado dos
docentes para utilizá-los no processo de construção do conhecimento escolar de
história.
Um dos fatores que favorecem esta realidade envolve
também a responsabilidade do Estado em fornecer equipamentos tecnológicos às
escolas, acompanhada de uma boa formação historiográfica e metodológica do
professor para tal articulação. Isto porque, se o docente não tiver base sólida
da concepção de história que irá nortear seu trabalho em sala de aula e
conhecimento de como relacioná-la a uma metodologia definida, acabará limitando
as possibilidades de uso dessa ferramenta pedagógica no ensino da disciplina. A divulgação das propagandas
governamentais, pelos meios de comunicação, emprega um discurso que escamoteia
a realidade ao induzir a uma leitura de que todas as escolas estão equipadas
com computadores e à crença de um acesso geral e uniforme à internet.
Essas notícias não correspondem aos dados coletados
e analisados no universo da pesquisa e são pouco pertinentes ao contexto das
escolas investigadas, já que a maioria dos professores de história justificou a
não-utilização dessa ferramenta pedagógica, sobretudo em razão de sua
falta, tanto por conta de equipamento quanto de laboratório. O que se percebe neste processo é que a
implementação dos sistemas tecnológicos nas escolas não foi acompanhada, em
qualidade e quantidade, de um processo metodológico de formação dos professores
de história, desconsiderando sua condição de principais sujeitos do processo
pedagógico. Deve haver, então, uma retomada, por parte do Estado, desse
programa. Voltar o seu olhar prioritariamente para os docentes como correção de
rota no processo de inclusão das novas tecnologias, ou seja, propiciar
condições de trabalho ao inserir tais inovações na escola e não apenas ampliar
as responsabilidades dos professores sem o respaldo adequado para tal.
O que se propõe, portanto, é que os professores
aceitem o desafio de considerar essas transformações no contexto de sua prática
pedagógica, buscando a própria autonomia para estar à frente do seu tempo e,
sobretudo, para conduzir sua própria formação continuada, visto que as
tecnologias de comunicação e informação somente poderão contribuir se o professor
tiver uma formação teórico-metodológica de qualidade e se as informações forem
transformadas em conhecimento para ele e seus alunos, resultando na melhoria do
ensino, a partir da didática da história necessária à formação de pessoas
capazes de perceber a dimensão do humano a partir da leitura das humanidades.
* Cyntia Simioni França é Doutoranda em Educação pela
Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, Mestre em História Social pela
Universidade Estadual de Londrina – UEM e professora da Universidade Norte do
Paraná – UNOPAR.
* Cristiano
Biazzo Simon é Pós doutor pela
Universitat Autònoma de Barcelona, doutor e Mestre em História Social pela
Universidade de São Paulo – USP e professor da Universidade Estadual de
Londrina – UEL.
O Artigo completo (e as referências) estão disponíveis em:
http://www.revistas.udesc.br/index.php/tempo/article/view/2175180306122014186/3715
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