quinta-feira, 9 de novembro de 2017
quarta-feira, 8 de novembro de 2017
Avaliação dissertativa em grupo.
A música Caipira representa a voz da gente simples do campo e relata os costumes do povo interiorano, servindo como ferramenta de preservação das raízes culturais através das letras e ritmos. A Música Caipira é difundida principalmente através da oralidade e retrata a vida na roça, as alegrias, as tristezas e o cotidiano do meio rural.
Após as audições e leitura das letras pré-selecionadas, cada grupo deverá apresentar uma dissertação com o título "Música Caipira, Fonte da História Interiorana" e escrever sobre as características da música escolhida, apresentando um breve resumo sobre o tema abordado pela Moda de Viola e as características que relevam o caráter histórico da composição (seja um acontecimento, uma paisagem, etc).
Min. 10 linhas Máx. 30 linhas.
Após as audições e leitura das letras pré-selecionadas, cada grupo deverá apresentar uma dissertação com o título "Música Caipira, Fonte da História Interiorana" e escrever sobre as características da música escolhida, apresentando um breve resumo sobre o tema abordado pela Moda de Viola e as características que relevam o caráter histórico da composição (seja um acontecimento, uma paisagem, etc).
Min. 10 linhas Máx. 30 linhas.
A Música Caipira em aulas de História: Questões e Possibilidades.
*Edilson Aparecido Chaves
*Tânia Maria F. Braga Garcia
O presente trabalho apresenta alguns resultados da pesquisa de dissertação de
mestrado “A música caipira em aulas de história: questões e possibilidades” defendida no
Programa de Pós-Graduação em Educação Área de Concentração: Cultura, Escola e Ensino da
UFPR. Um dos objetivos foi analisar a presença e ausência da música brasileira nos manuais
didáticos voltados para o Ensino Fundamental 3
, em especial, a ausência da música caipira ou
sertaneja de raiz. Numa análise das vinte e coleções aprovadas pelo PNLD (Programa
Nacional do Livro Didático – 2002/2005), nenhuma apresentava propostas de trabalho com o
gênero em questão.
É importante esclarecer que o caminho percorrido na análise dessas obras levou em
conta algumas considerações: a primeira foi verificar quais canções foram privilegiadas e suas
incidências nesses manuais; a segunda foi identificar quais metodologias os autores usaram
para análise dessas canções e se são trabalhadas no manual do professor ou livro do aluno e a
terceira consideração é a discussão sobre a ausência da música caipira nesses manuais e a
possibilidade, a partir de indicações, de propostas de trabalho com esse gênero, aliada com os
conteúdos trabalhados em sala de aula, nas aulas de História.
Nossa pesquisa visa engrossar uma discussão que vem tomando corpo ao longo dos
anos na área de história e que ganha um reforço com os PCNs (Parâmetros Curriculares
Nacionais) quando estes indicam como objetivos do ensino fundamental que os alunos sejam
capazes de: “utilizar as diferentes linguagens verbal, musical, matemática, gráfica, plástica e
corporal – como meio para produzir expressar e comunicar suas idéias, interpretar e usufruir
das produções culturais, em contextos públicos e privados, atendendo a diferentes intenções e
situações de comunicação” (PCNs p. 7: 1998).
No primeiro capítulo, apresenta-se uma discussão sobre o conceito de cultura a partir
do pensamento de Raymond Williams que se contrapõe a uma cultura elitista e canônica,
sugerindo uma cultura comum. Para ele, a cultura tradicional canônica é um patrimônio comum, uma herança comum, que a educação tem a tarefa de difundir, tornar acessível a
todas as classes sociais, da mesma forma que a cultura popular.
No segundo capítulo são apresentados elementos mais específicos sobre a
conceituação do livro didático, de forma a articular as análises de vinte e duas coleções de
manuais didáticos de História para quinta à oitava série do ensino fundamental, aprovados no
PNLD de 2005, totalizando 84 livros.
No terceiro capítulo, são descritos analiticamente os resultados do trabalho empírico
realizado com alunos de uma turma de Ensino Médio de Escola Pública, no qual foram
estruturadas e propostas algumas questões de investigação relacionadas à presença da música
no cotidiano dos jovens e de suas famílias, bem como uma caracterização de elementos
constitutivos das relações que estabelecem com a música fora e dentro do espaço escolar e,
finalmente, algumas atividades com a música caipira para verificar as formas pelas quais se
relacionam especificamente com este gênero, com a finalidade de contribuir para a discussão
das possibilidades de seu uso em aulas de História.
Considerações sobre a música caipira
Na década de 1920, surgem no Brasil estudos de resgate dessa cultura, denominada
popular, e novas discussões são travadas na direção de se opor passado e presente, a música
passando a ser uma das formas de resgate do passado. Foi a partir dessa década que surgiram
as primeiras canções caipiras gravadas em disco como a célebre “Tristezas do Jeca”,
composta por Angelino de Oliveira em 1918 e gravada em 1923. Mas será com Cornélio Pires
e sua Turma que esse gênero musical entrará na indústria cultural. Cornélio passou a se
apresentar pelo interior paulista fazendo shows, gravando seu primeiro disco em 1929. Como
o gênero ainda era desconhecido, tirou dinheiro do próprio bolso, acreditando no sucesso que
estava por vir.
Grandes mudanças passam a ocorrer na composição das letras; as temáticas que antes
tratavam de ritos religiosos, canções de trabalho, ciclos da lavoura, passam agora a tratar do
amor, da nostalgia (canções de exílio). Como afirma José de Souza Martins “... é o esforço
que o agente faz para reconstituir seu universo simbólico no próprio contexto urbano, apropriando-se positivamente de determinadas mensagens culturais que, embora produzidas
na cidade, recorrem a modos rústicos de estruturação da experiência”.
Mas, se o homem do campo migrou para a cidade, a que classe passa a pertencer?
Dada a grande migração gerada a partir de 1950, conhecido como período
desenvolvimentista, esses homens passam a fazer parte dos segmentos da classe operária, sem
no entanto esquecer o passado, como relata a narrativa da canção a seguir:
“É só eu pega na viola, me vem a recordação:
o tempo do meu sitinho,
que tudo era bom, ai...
que tudo era bom.
(...)”
Verifica-se, portanto um reajuste da cultura rural frente à urbana, na qual a primeira
obrigatoriamente passa a aceitar as condições impostas pela segunda. Mas o caipira jamais
esqueceria sua origem e, um dos instrumentos utilizados para tal fim, foi a música.
Vale destacar, no contexto da preservação de valores culturais, o surgimento de um
novo gênero dentro da música caipira, conhecido como “Tupiana”, iniciado em 1958 por
Alcides Felismino de Souza (Nonô Basílio) e Mário Zan. Esse gênero tinha como objetivo
criar um ritmo essencialmente brasileiro visto que, segundo os autores, o Brasil vinha
recebendo uma maciça carga de ritmos estrangeiros, denominados por eles de “alienígenas”,
os quais prejudicavam a música regional brasileira - essas músicas “alienígenas” na verdade
eram rasqueados e guarânias do Paraguai que a cada dia ganhavam mais força no Brasil
urbano e rural.
Objetivando, portanto, barrar essa influência, os compositores iniciaram um
movimento de “combate” à música estrangeira. Infelizmente, o novo gênero não teve
repercussão e o movimento acabou por produzir apenas três canções no ritmo tupi: “Alvorada
Tupi”, “Linda Forasteira” e“Manakiriki”. Tomando-se essas idéias postas, ainda de forma inicial, configurou-se um projeto de
investigação que procure discutir um tipo de aprendizado em relação ao trabalho com a
história/música/canção, apontando possibilidades de trabalho no ensino que permita criar
condições para que o aluno adquira os instrumentos necessários que lhe permitam decodificar
idéias já existentes e produzir novas.
A problemática que origina a construção desse objeto de pesquisa encontra-se na
relação de professores de história com os saberes que ensinam, particularmente na direção de
investigar como se dá a transposição didática com o uso da música em sala e a compreensão
das letras enquanto elementos históricos e simbólicos. Por conseqüência, concorrem para sua
justificativa a relevância do aprimoramento do trabalho docente e seus possíveis benefícios
para a melhor qualificação do trabalho em sala de aula.
Partindo dessa premissa, pode-se observar um elemento constante no cotidiano de
alunos, sejam eles do Ensino Fundamental ou Médio, e que paradoxalmente tem sido
menosprezado na sala de aula e subestimado no meio acadêmico.
Trata-se do trabalho da
música de raiz associada ao ensino de história.
É possível observar que nos últimos anos tem sido bastante comum a utilização da
canção, seja como fonte para a pesquisa histórica, seja como recurso didático para o ensino
das ciências humanas em geral. Mas, percebeu-se também em uma revisão bibliográfica
preliminar que grande parte das pesquisas foram concentradas em temas como a Bossa Nova,
Tropicalismo e a Jovem Guarda sendo o gênero caipira simplesmente descartado nos manuais
didáticos, as músicas não são citadas como fontes históricas ou mesmo como crônicas do
cotidiano.
A música caipira faz parte da memória, está dentro de um contexto que expressa as
angústias do homem do campo frente à sua nova realidade - que é a urbana - e deixar esse
momento cair na escuridão seria uma grave perda cultural/pedagógica.
Na perspectiva do historiador Jacques Le Goff, “Devemos fazer o inventário dos
arquivos do silêncio, e fazer a história a partir de documentos e das ausências de
documentos”. Dentro desse contexto, o estudo das canções servirá como um elemento de
análise e compreensão da realidade vivida. Dentre os temas cantados nas modas e músicas
caipira/sertaneja, muitos deles carregam críticas a governos, apreciações sobre os problemas
do cotidiano, como é o caso da música “moda do bonde camarão” antes denominada “bonde
camarão” em que um caipira ao chegar na cidade de São Paulo descreve as características dos
bondes modernos:
“Aqui em São Paulo
o que mais me amola
é esses bonde
nem gaiola.
Cheguei, abriro a portinhola,
levei um tranco
e quebrei a viola.
Inda puis dinheiro na caxa de esmola”.
Essa música revela, num primeiro momento a recusa do caipira em entender o
capitalismo na sua forma mais original, o de exploração, isso se revela no uso da máquina
para se locomover e na “caxa” de esmola, que na verdade é o lucro da empresa.
Jovens, música e ensino de história
Os alunos participantes da pesquisa apresentaram elementos comuns, em suas
respostas aos questionários aplicados, quanto à canção caipira e a possibilidade de seu uso nas
aulas de História. Ficou claro que a grande maioria não consome músicas desse gênero, mas
também não consomem muitos dos gêneros indicados nos manuais didáticos, como a MPB.
Ficou claro também que a música caipira está presente como elemento da cultura
primeira dos alunos, associada por muitos deles com suas origens familiares no interior do
país, e reconhecida também como gênero que agrada pais e parentes.
No entanto, informações dadas por alguns alunos que responderam aos questionários
apontaram para a existência de uma relação entre a música caipira e a cultura primeira dos
jovens.
Embora esses alunos não tenham como opção a audição da música caipira em seu
cotidiano, suas respostas revelaram uma forte presença desse gênero musical no interior de
algumas famílias, sobretudo aquelas oriundas do interior do Estado do Paraná, situação que
configura a origem da maioria dos jovens pesquisados.
Embora expressando inicialmente que não incluem a música caipira entre seus gostos
pessoais, e referindo-se a ela, também inicialmente, de forma pejorativa, após participarem da
atividade realizada como parte do trabalho empírico, constituindo-se em uma experiência de
ensino, os jovens manifestaram, em sua maioria, a possibilidade de que esse gênero seja
compreendido, assim como outros incluídos nos manuais didáticos, como elemento da cultura
que pode ser trabalhado nas aulas de História e que pode contribuir para o aprendizado dos
jovens alunos nessa disciplina escolar.
O fato de que os alunos estabeleceram notas baixas para a música caipira foram capazes de lembrar de algumas músicas trabalhadas em sala por seus professores em
anos anteriores, músicas que em sua maioria estão presentes nos manuais didáticos, mas que
também foram incluídas nas aulas pelos professores de diferentes disciplinas e que também
não estão entre os gêneros indicados por eles entre as suas preferências e gostos.
Pode-se entender que, sendo a música caipira excluída desses manuais, não houve - ao
menos no ensino fundamental - uma contribuição no sentido da valorização desse tipo de
música no âmbito escolar e, particularmente, no contexto das aulas de História.
Algumas questões podem estar associadas a posição negativa dos alunos em relação à
música caipira: a ausência desse gênero em manuais didáticos do ensino fundamental, a pouca
divulgação da grande mídia em nível nacional de cantores ou compositores do universo
caipira, o preconceito ainda existente quanto à forma de se cantar do interior, sobretudo
quanto ao uso de expressões de linguagem, e a permanência da ideia do caipira - ou aquele
que o representa - como “atrasado”. Certamente são questões que merecem ser aprofundadas
em trabalhos e discussões futuros em outras áreas geográficas, numa tentativa de comparar se
o pensamento dos jovens pesquisados nesse colégio do Paraná apresenta semelhanças ou
diferenças significativas com relação ao pensamento de jovens de outras regiões do país.
Identifiquei aqui um aspecto interessante para as aulas de História, que é a
possibilidade de alunos de outras regiões do país terem contato com uma cultura que, embora
esteja mais presente em regiões como o Centro Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, compõe uma
cultura nacional.
Claro está que nem todos os conteúdos e conhecimentos podem ser
relacionados às canções, mas se há o objetivo de formar os alunos para a cidadania, é
necessário oferecer a eles as melhores ferramentas para que possam aprender. Penso que a
música caipira pode ser incluída dentro dessa possibilidade, pois como revelaram os sujeitos
que colaboram nesta investigação, jovens alunos de Ensino Médio, a música caipira tem
algum significado em sua cultura primeira e, portanto, não inserir esse gênero musical nos
estudos em sala de aula significa desconsiderar ou mesmo silenciar - no espaço da cultura
elaborada - uma cultura presente em suas vidas.
Mas que lugar teria a cultura caipira e sua música na cultura escolar? Ora, ao se pensar
a escola como um lugar em que se “prepara para o futuro” e que nesse futuro apenas serão
aceitos cidadãos que se apropriaram e valorizam a chamada “cultura superior”, então a cultura
caipira e sua música de nada valerão. Porém, ao pensar a cultura na perspectiva de Raymond
Williams, ou seja, como uma cultura comum em que não há exclusão e antagonismos entre os conteúdos , em uma concepção em que todas as culturas são vistas como verdadeiramente
democráticas, então o uso da música caipira nas aulas de História ou outras disciplinas fará
sentido.
Georges Snyders (1988) defende a idéia de que a escola é um local onde os jovens
devem buscar e sentir a satisfação cultural, fato que pude observar a partir das respostas dos
alunos, em que expuseram a alegria da audição de uma canção aliada ao conhecimento
histórico, ou seja, a satisfação em ter participado de uma situação de ensino e aprendizagem
em que puderam compreender as possibilidades de diálogo da cultura primeira com a cultura
elaborada.
O intuito da proposta de trabalho apresentada aos jovens não foi de que esses alunos,
a partir da audição e discussão das canções caipiras, viessem a gostar do gênero, mas que
pudessem conhecer quem cantou e quem canta o caipira, verificar a presença de temáticas
históricas nessas canções, sem criar estereótipos e preconceitos acerca dessa cultura.
A pesquisa realizada levanta questões que poderão ser aprofundadas por outros
pesquisadores sobre a ausência/presença deste gênero nas aulas de História. O que fiz foi
apontar a possibilidade de se trabalhar essa música nas aulas de História, verificando a
possibilidade de, a partir delas, criar sentidos a serem compartilhados com jovens estudantes
que gostam de rock, RAP, MPB ou outros gêneros. No entanto, a indicação de um maior
número de canções caipira/sertanejas nos manuais didáticos seria, para já, uma contribuição
para se desfazer discursos sobre a inferioridade desse gênero, principalmente se a indicação
for acompanhada de adequadas orientações didáticas para o trabalho dos alunos.
* Tania Mara Figueiredo Braga Garcia é doutora em Educação pela Universidade de São Paulo.
* Edilson Aparecido Chaves é doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná.
Artigo disponível em: http://www.educadores.diaadia.pr.gov.br/arquivos/File/fevereiro2012/historia_artigos/2chavesgarcia_artigo.pdf . Acesso dia: 07/11/2017.
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