Violando a História
Histórias, ponteados e opinião.
quinta-feira, 9 de novembro de 2017
quarta-feira, 8 de novembro de 2017
Avaliação dissertativa em grupo.
A música Caipira representa a voz da gente simples do campo e relata os costumes do povo interiorano, servindo como ferramenta de preservação das raízes culturais através das letras e ritmos. A Música Caipira é difundida principalmente através da oralidade e retrata a vida na roça, as alegrias, as tristezas e o cotidiano do meio rural.
Após as audições e leitura das letras pré-selecionadas, cada grupo deverá apresentar uma dissertação com o título "Música Caipira, Fonte da História Interiorana" e escrever sobre as características da música escolhida, apresentando um breve resumo sobre o tema abordado pela Moda de Viola e as características que relevam o caráter histórico da composição (seja um acontecimento, uma paisagem, etc).
Min. 10 linhas Máx. 30 linhas.
Após as audições e leitura das letras pré-selecionadas, cada grupo deverá apresentar uma dissertação com o título "Música Caipira, Fonte da História Interiorana" e escrever sobre as características da música escolhida, apresentando um breve resumo sobre o tema abordado pela Moda de Viola e as características que relevam o caráter histórico da composição (seja um acontecimento, uma paisagem, etc).
Min. 10 linhas Máx. 30 linhas.
A Música Caipira em aulas de História: Questões e Possibilidades.
*Edilson Aparecido Chaves
*Tânia Maria F. Braga Garcia
O presente trabalho apresenta alguns resultados da pesquisa de dissertação de
mestrado “A música caipira em aulas de história: questões e possibilidades” defendida no
Programa de Pós-Graduação em Educação Área de Concentração: Cultura, Escola e Ensino da
UFPR. Um dos objetivos foi analisar a presença e ausência da música brasileira nos manuais
didáticos voltados para o Ensino Fundamental 3
, em especial, a ausência da música caipira ou
sertaneja de raiz. Numa análise das vinte e coleções aprovadas pelo PNLD (Programa
Nacional do Livro Didático – 2002/2005), nenhuma apresentava propostas de trabalho com o
gênero em questão.
É importante esclarecer que o caminho percorrido na análise dessas obras levou em
conta algumas considerações: a primeira foi verificar quais canções foram privilegiadas e suas
incidências nesses manuais; a segunda foi identificar quais metodologias os autores usaram
para análise dessas canções e se são trabalhadas no manual do professor ou livro do aluno e a
terceira consideração é a discussão sobre a ausência da música caipira nesses manuais e a
possibilidade, a partir de indicações, de propostas de trabalho com esse gênero, aliada com os
conteúdos trabalhados em sala de aula, nas aulas de História.
Nossa pesquisa visa engrossar uma discussão que vem tomando corpo ao longo dos
anos na área de história e que ganha um reforço com os PCNs (Parâmetros Curriculares
Nacionais) quando estes indicam como objetivos do ensino fundamental que os alunos sejam
capazes de: “utilizar as diferentes linguagens verbal, musical, matemática, gráfica, plástica e
corporal – como meio para produzir expressar e comunicar suas idéias, interpretar e usufruir
das produções culturais, em contextos públicos e privados, atendendo a diferentes intenções e
situações de comunicação” (PCNs p. 7: 1998).
No primeiro capítulo, apresenta-se uma discussão sobre o conceito de cultura a partir
do pensamento de Raymond Williams que se contrapõe a uma cultura elitista e canônica,
sugerindo uma cultura comum. Para ele, a cultura tradicional canônica é um patrimônio comum, uma herança comum, que a educação tem a tarefa de difundir, tornar acessível a
todas as classes sociais, da mesma forma que a cultura popular.
No segundo capítulo são apresentados elementos mais específicos sobre a
conceituação do livro didático, de forma a articular as análises de vinte e duas coleções de
manuais didáticos de História para quinta à oitava série do ensino fundamental, aprovados no
PNLD de 2005, totalizando 84 livros.
No terceiro capítulo, são descritos analiticamente os resultados do trabalho empírico
realizado com alunos de uma turma de Ensino Médio de Escola Pública, no qual foram
estruturadas e propostas algumas questões de investigação relacionadas à presença da música
no cotidiano dos jovens e de suas famílias, bem como uma caracterização de elementos
constitutivos das relações que estabelecem com a música fora e dentro do espaço escolar e,
finalmente, algumas atividades com a música caipira para verificar as formas pelas quais se
relacionam especificamente com este gênero, com a finalidade de contribuir para a discussão
das possibilidades de seu uso em aulas de História.
Considerações sobre a música caipira
Na década de 1920, surgem no Brasil estudos de resgate dessa cultura, denominada
popular, e novas discussões são travadas na direção de se opor passado e presente, a música
passando a ser uma das formas de resgate do passado. Foi a partir dessa década que surgiram
as primeiras canções caipiras gravadas em disco como a célebre “Tristezas do Jeca”,
composta por Angelino de Oliveira em 1918 e gravada em 1923. Mas será com Cornélio Pires
e sua Turma que esse gênero musical entrará na indústria cultural. Cornélio passou a se
apresentar pelo interior paulista fazendo shows, gravando seu primeiro disco em 1929. Como
o gênero ainda era desconhecido, tirou dinheiro do próprio bolso, acreditando no sucesso que
estava por vir.
Grandes mudanças passam a ocorrer na composição das letras; as temáticas que antes
tratavam de ritos religiosos, canções de trabalho, ciclos da lavoura, passam agora a tratar do
amor, da nostalgia (canções de exílio). Como afirma José de Souza Martins “... é o esforço
que o agente faz para reconstituir seu universo simbólico no próprio contexto urbano, apropriando-se positivamente de determinadas mensagens culturais que, embora produzidas
na cidade, recorrem a modos rústicos de estruturação da experiência”.
Mas, se o homem do campo migrou para a cidade, a que classe passa a pertencer?
Dada a grande migração gerada a partir de 1950, conhecido como período
desenvolvimentista, esses homens passam a fazer parte dos segmentos da classe operária, sem
no entanto esquecer o passado, como relata a narrativa da canção a seguir:
“É só eu pega na viola, me vem a recordação:
o tempo do meu sitinho,
que tudo era bom, ai...
que tudo era bom.
(...)”
Verifica-se, portanto um reajuste da cultura rural frente à urbana, na qual a primeira
obrigatoriamente passa a aceitar as condições impostas pela segunda. Mas o caipira jamais
esqueceria sua origem e, um dos instrumentos utilizados para tal fim, foi a música.
Vale destacar, no contexto da preservação de valores culturais, o surgimento de um
novo gênero dentro da música caipira, conhecido como “Tupiana”, iniciado em 1958 por
Alcides Felismino de Souza (Nonô Basílio) e Mário Zan. Esse gênero tinha como objetivo
criar um ritmo essencialmente brasileiro visto que, segundo os autores, o Brasil vinha
recebendo uma maciça carga de ritmos estrangeiros, denominados por eles de “alienígenas”,
os quais prejudicavam a música regional brasileira - essas músicas “alienígenas” na verdade
eram rasqueados e guarânias do Paraguai que a cada dia ganhavam mais força no Brasil
urbano e rural.
Objetivando, portanto, barrar essa influência, os compositores iniciaram um
movimento de “combate” à música estrangeira. Infelizmente, o novo gênero não teve
repercussão e o movimento acabou por produzir apenas três canções no ritmo tupi: “Alvorada
Tupi”, “Linda Forasteira” e“Manakiriki”. Tomando-se essas idéias postas, ainda de forma inicial, configurou-se um projeto de
investigação que procure discutir um tipo de aprendizado em relação ao trabalho com a
história/música/canção, apontando possibilidades de trabalho no ensino que permita criar
condições para que o aluno adquira os instrumentos necessários que lhe permitam decodificar
idéias já existentes e produzir novas.
A problemática que origina a construção desse objeto de pesquisa encontra-se na
relação de professores de história com os saberes que ensinam, particularmente na direção de
investigar como se dá a transposição didática com o uso da música em sala e a compreensão
das letras enquanto elementos históricos e simbólicos. Por conseqüência, concorrem para sua
justificativa a relevância do aprimoramento do trabalho docente e seus possíveis benefícios
para a melhor qualificação do trabalho em sala de aula.
Partindo dessa premissa, pode-se observar um elemento constante no cotidiano de
alunos, sejam eles do Ensino Fundamental ou Médio, e que paradoxalmente tem sido
menosprezado na sala de aula e subestimado no meio acadêmico.
Trata-se do trabalho da
música de raiz associada ao ensino de história.
É possível observar que nos últimos anos tem sido bastante comum a utilização da
canção, seja como fonte para a pesquisa histórica, seja como recurso didático para o ensino
das ciências humanas em geral. Mas, percebeu-se também em uma revisão bibliográfica
preliminar que grande parte das pesquisas foram concentradas em temas como a Bossa Nova,
Tropicalismo e a Jovem Guarda sendo o gênero caipira simplesmente descartado nos manuais
didáticos, as músicas não são citadas como fontes históricas ou mesmo como crônicas do
cotidiano.
A música caipira faz parte da memória, está dentro de um contexto que expressa as
angústias do homem do campo frente à sua nova realidade - que é a urbana - e deixar esse
momento cair na escuridão seria uma grave perda cultural/pedagógica.
Na perspectiva do historiador Jacques Le Goff, “Devemos fazer o inventário dos
arquivos do silêncio, e fazer a história a partir de documentos e das ausências de
documentos”. Dentro desse contexto, o estudo das canções servirá como um elemento de
análise e compreensão da realidade vivida. Dentre os temas cantados nas modas e músicas
caipira/sertaneja, muitos deles carregam críticas a governos, apreciações sobre os problemas
do cotidiano, como é o caso da música “moda do bonde camarão” antes denominada “bonde
camarão” em que um caipira ao chegar na cidade de São Paulo descreve as características dos
bondes modernos:
“Aqui em São Paulo
o que mais me amola
é esses bonde
nem gaiola.
Cheguei, abriro a portinhola,
levei um tranco
e quebrei a viola.
Inda puis dinheiro na caxa de esmola”.
Essa música revela, num primeiro momento a recusa do caipira em entender o
capitalismo na sua forma mais original, o de exploração, isso se revela no uso da máquina
para se locomover e na “caxa” de esmola, que na verdade é o lucro da empresa.
Jovens, música e ensino de história
Os alunos participantes da pesquisa apresentaram elementos comuns, em suas
respostas aos questionários aplicados, quanto à canção caipira e a possibilidade de seu uso nas
aulas de História. Ficou claro que a grande maioria não consome músicas desse gênero, mas
também não consomem muitos dos gêneros indicados nos manuais didáticos, como a MPB.
Ficou claro também que a música caipira está presente como elemento da cultura
primeira dos alunos, associada por muitos deles com suas origens familiares no interior do
país, e reconhecida também como gênero que agrada pais e parentes.
No entanto, informações dadas por alguns alunos que responderam aos questionários
apontaram para a existência de uma relação entre a música caipira e a cultura primeira dos
jovens.
Embora esses alunos não tenham como opção a audição da música caipira em seu
cotidiano, suas respostas revelaram uma forte presença desse gênero musical no interior de
algumas famílias, sobretudo aquelas oriundas do interior do Estado do Paraná, situação que
configura a origem da maioria dos jovens pesquisados.
Embora expressando inicialmente que não incluem a música caipira entre seus gostos
pessoais, e referindo-se a ela, também inicialmente, de forma pejorativa, após participarem da
atividade realizada como parte do trabalho empírico, constituindo-se em uma experiência de
ensino, os jovens manifestaram, em sua maioria, a possibilidade de que esse gênero seja
compreendido, assim como outros incluídos nos manuais didáticos, como elemento da cultura
que pode ser trabalhado nas aulas de História e que pode contribuir para o aprendizado dos
jovens alunos nessa disciplina escolar.
O fato de que os alunos estabeleceram notas baixas para a música caipira foram capazes de lembrar de algumas músicas trabalhadas em sala por seus professores em
anos anteriores, músicas que em sua maioria estão presentes nos manuais didáticos, mas que
também foram incluídas nas aulas pelos professores de diferentes disciplinas e que também
não estão entre os gêneros indicados por eles entre as suas preferências e gostos.
Pode-se entender que, sendo a música caipira excluída desses manuais, não houve - ao
menos no ensino fundamental - uma contribuição no sentido da valorização desse tipo de
música no âmbito escolar e, particularmente, no contexto das aulas de História.
Algumas questões podem estar associadas a posição negativa dos alunos em relação à
música caipira: a ausência desse gênero em manuais didáticos do ensino fundamental, a pouca
divulgação da grande mídia em nível nacional de cantores ou compositores do universo
caipira, o preconceito ainda existente quanto à forma de se cantar do interior, sobretudo
quanto ao uso de expressões de linguagem, e a permanência da ideia do caipira - ou aquele
que o representa - como “atrasado”. Certamente são questões que merecem ser aprofundadas
em trabalhos e discussões futuros em outras áreas geográficas, numa tentativa de comparar se
o pensamento dos jovens pesquisados nesse colégio do Paraná apresenta semelhanças ou
diferenças significativas com relação ao pensamento de jovens de outras regiões do país.
Identifiquei aqui um aspecto interessante para as aulas de História, que é a
possibilidade de alunos de outras regiões do país terem contato com uma cultura que, embora
esteja mais presente em regiões como o Centro Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, compõe uma
cultura nacional.
Claro está que nem todos os conteúdos e conhecimentos podem ser
relacionados às canções, mas se há o objetivo de formar os alunos para a cidadania, é
necessário oferecer a eles as melhores ferramentas para que possam aprender. Penso que a
música caipira pode ser incluída dentro dessa possibilidade, pois como revelaram os sujeitos
que colaboram nesta investigação, jovens alunos de Ensino Médio, a música caipira tem
algum significado em sua cultura primeira e, portanto, não inserir esse gênero musical nos
estudos em sala de aula significa desconsiderar ou mesmo silenciar - no espaço da cultura
elaborada - uma cultura presente em suas vidas.
Mas que lugar teria a cultura caipira e sua música na cultura escolar? Ora, ao se pensar
a escola como um lugar em que se “prepara para o futuro” e que nesse futuro apenas serão
aceitos cidadãos que se apropriaram e valorizam a chamada “cultura superior”, então a cultura
caipira e sua música de nada valerão. Porém, ao pensar a cultura na perspectiva de Raymond
Williams, ou seja, como uma cultura comum em que não há exclusão e antagonismos entre os conteúdos , em uma concepção em que todas as culturas são vistas como verdadeiramente
democráticas, então o uso da música caipira nas aulas de História ou outras disciplinas fará
sentido.
Georges Snyders (1988) defende a idéia de que a escola é um local onde os jovens
devem buscar e sentir a satisfação cultural, fato que pude observar a partir das respostas dos
alunos, em que expuseram a alegria da audição de uma canção aliada ao conhecimento
histórico, ou seja, a satisfação em ter participado de uma situação de ensino e aprendizagem
em que puderam compreender as possibilidades de diálogo da cultura primeira com a cultura
elaborada.
O intuito da proposta de trabalho apresentada aos jovens não foi de que esses alunos,
a partir da audição e discussão das canções caipiras, viessem a gostar do gênero, mas que
pudessem conhecer quem cantou e quem canta o caipira, verificar a presença de temáticas
históricas nessas canções, sem criar estereótipos e preconceitos acerca dessa cultura.
A pesquisa realizada levanta questões que poderão ser aprofundadas por outros
pesquisadores sobre a ausência/presença deste gênero nas aulas de História. O que fiz foi
apontar a possibilidade de se trabalhar essa música nas aulas de História, verificando a
possibilidade de, a partir delas, criar sentidos a serem compartilhados com jovens estudantes
que gostam de rock, RAP, MPB ou outros gêneros. No entanto, a indicação de um maior
número de canções caipira/sertanejas nos manuais didáticos seria, para já, uma contribuição
para se desfazer discursos sobre a inferioridade desse gênero, principalmente se a indicação
for acompanhada de adequadas orientações didáticas para o trabalho dos alunos.
* Tania Mara Figueiredo Braga Garcia é doutora em Educação pela Universidade de São Paulo.
* Edilson Aparecido Chaves é doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná.
Artigo disponível em: http://www.educadores.diaadia.pr.gov.br/arquivos/File/fevereiro2012/historia_artigos/2chavesgarcia_artigo.pdf . Acesso dia: 07/11/2017.
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sexta-feira, 6 de outubro de 2017
Professores de história: o uso do computador na construção do conhecimento histórico escolar.
Cyntia Simioni França*
Cristiano Biazzo Simon*
Diante das transformações tecnológicas, surgem
novas exigências sociais, refletindo-se na educação, impondo questionamentos
sobre o papel da escola. Duas grandes preocupações nessa direção, aqui
colocadas em forma de indagações, nortearam a presente reflexão; a ela se
imbricam e com ela dialogam, a saber: Como as novas tecnologias (em especial o
computador) foram incorporadas à escola? No caso específico desta pesquisa,
como essa ferramenta pedagógica pode contribuir no ensino de história?
Sendo a escola um local de construção do
conhecimento, socialização do saber e troca de experiências, tal situação
coloca a necessidade de debates entre educadores e equipe pedagógica para a
incorporação, de forma crítica, do computador no ensino. Lembrando que a instituição escolar deve
estar à frente em uma sociedade em que as informações são ultrapassadas num
curto espaço de tempo, “não se pode admitir que justamente a escola, local onde
se produz conhecimento, fique à margem da maior fonte de informações disponíveis
e, mais, não seja capaz de orientar sua utilização” (Ferreira, 1997, p. 87).
Este pressuposto implica práticas pedagógicas
focadas não apenas nos conceitos disciplinares, mas na pesquisa e seleção das
informações adquiridas para a resolução de problemas ligados ao seu contexto
social, bem como à produção do conhecimento escolar de história. Portanto,
exige-se um repensar do ensino de história, incompatível com memorização,
repetição de fatos e a condição do professor como exclusivo detentor do saber. Sabe-se que a incorporação dos
computadores na escola altera os papéis dos professores e, consequentemente,
dos alunos, de acordo com a afirmação de Bittencourt (2004), segundo o qual os
alunos estabelecem comunicações interativas e mudanças culturais que geram
indivíduos com diferentes potencialidades de compreender a sociedade em que
vivem.
Neste sentido, as novas linguagens, imersas na
sociedade, possibilitam novas formas de leitura; entretanto, o computador não
pode ser visto apenas como um dos maiores veículos de transmissão de
informações, mas como ferramenta pedagógica no ensino de história, que envolve
procedimentos de problematização, observação, registro, documentação, e até
formulação de hipóteses (CIAMPI, 2003). Convém lembrar que, como qualquer outro recurso
tecnológico, este deve ser entendido como um dos meios alternativos para
construir o conhecimento escolar de história, visto que propicia aos sujeitos
se interligar com o mundo, possibilitando escolas menos autoritárias, cedendo
lugar a ambientes de aprendizagem mais estimuladores e criativos, desde que
submetidos a um olhar crítico, forem considerados apropriados. Desde a década
de 1970, existem propostas de modernização do ensino apoiadas na utilização das
tecnologias de comunicação e informação (TIC), como televisores, rádios,
videocassetes, retroprojetores e informática. Nas instituições escolares,
contudo, sua implementação e utilização estava embasada quase toda em
concepções tecnicistas.
Até meados de 1980, as tecnologias eram entendidas
majoritariamente pela função de aperfeiçoar o processo de ensino, colocadas
como recursos didáticos de apoio ao professor, por serem mais dinâmicas e
atrativas do que a aula expositiva e o clássico uso do quadro de giz. Nessa
perspectiva, propunha-se acabar com as falhas da educação, baseada em
transmissão de informações do professor para o aluno. Assim, as máquinas, pela
capacidade de armazenamento de informações, eram vistas como mais eficientes
para ensinar os conteúdos aos alunos. Inserir as tecnologias nessa perspectiva
é o mesmo que não o utilizar, pois, animar a aula ou o professor, ilustrar os
conteúdos, simplesmente chamar a atenção dos alunos pela visualidade e
sonoridade se resume apenas a um uso instrumental que “esvazia esses recursos de
suas características fundamentais, transformando-os apenas num animador da
velha educação, que se desfaz velozmente uma vez que o encanto da novidade
também deixa de existir” (PRETTO, 1996, p. 114).
A simples incorporação das TIC não gera processos
de inovação, nem mesmo de melhoria do processo de ensino e aprendizagem. “A
utilização dos recursos das tecnologias de informação e comunicação pela escola
não garante mudanças na qualidade da educação. É necessário repensar os
paradigmas existentes para adoção de novas práticas educativas” (GOMES, 2002,
p. 120).
É por esses motivos que o uso do computador é
questionado, sendo necessário que se debatam as implicações no ensino de
história e as mudanças na postura do docente em seu uso. Em outras palavras, o
que de fato modifica é a forma como os professores delas se apropriam e as
utilizam na prática pedagógica para que os processos sejam alterados (COLL;
MAURI; ONRUBIA, 2010). Com
raras exceções, porém, a implantação das novas tecnologias de comunicação e
informação na educação, especificamente no ensino de história, tanto pelos
governos federais quanto estaduais ou setores privados, lamentavelmente ainda é
entendida como simples instrumento didático, “somando-se à perspectiva de que a
educação modernizante deve fornecer um ensino técnico acerca dos princípios
básicos da informática, criando assim uma mão-de-obra especializada” (NOVA,
1999, p. 84). Somente quando essas
máquinas forem entendidas na escola, e a partir de novas práticas pedagógicas,
é que se estará enfocando a aprendizagem dos alunos e desenvolvendo uma
pedagogia de inclusão, contribuindo para a melhoria da qualidade na formação.
Formação continuada como iniciativa do
poder público: teoria ou prática?
Sendo o computador uma tecnologia de uso ainda
recente, quando se trata dessa questão no espaço escolar, a formação continuada
dos professores pode ser um meio para compreender e, especialmente, para
alavancar o processo de inserção das novas tecnologias no ensino atrelado às
metodologias do ensino de história. Tal afirmação nos leva a questionar: Os
professores de história participam de formação continuada? Como é essa
formação? Apenas para uso instrumental ou pautado na perspectiva de uma
abordagem construcionista de educação?
Nesta pesquisa, os professores indicaram haver
programas de formação nesta linha de trabalho vinculados ao Proinfo; 35,29%
deles afirmaram que fazem cursos com os profissionais de informática. Em base
às respostas ao questionamento sobre a atuação do NTE (Núcleo Tecnológico
Educacional) - se foi suficiente ou não -, podem-se fazer pelos menos três
observações: atualmente, não há uma relação direta entre a atuação do NTE e o
uso do computador na escola; há uma distância entre a proposta do governo e a
prática na escola; a atuação do NTE é efêmera e circunstancial, ou seja,
insuficiente.
Os profissionais que trabalham nos núcleos são
capacitados pelo Proinfo para ajudar a instituição escolar em todas as fases do
processo de incorporação das novas tecnologias. Portanto, o NTE atua na escola
no processo de inclusão digital, orientando professores e alunos quanto ao uso
do computador no laboratório de informática, bem como no que se refere à
manutenção do equipamento. Sua função é orientar sobre o uso desses
instrumentos para promover o desenvolvimento dos alunos e a alcançar bons
resultados, não apenas na escola.
Na prática, entretanto, o que pudemos inferir dos
dados coletados é que se limitam a auxiliá-los na questão técnica da
informática e que em nada contribuem especificamente para a prática pedagógica
do profissional de história. Não se propõe aos professores de história uma
metodologia própria, senão a mesma para os professores em geral, independente
da área em que atuam, o que induz a admitir que os métodos de trabalho são
iguais para todas as disciplinas. Neste sentido, podemos caracterizá-los como
cursos de informática sobre a técnica para trabalhar com as máquinas.
Esta constatação, por isso, conduz à seguinte
questão: embora o estado do Paraná tenha uma política de inserção de novas
tecnologias nas escolas, com grupo de assessores técnicos específicos, não
pudemos verificar uma mudança de fato na postura dos professores, já que todos
estão sendo treinados de forma generalista e tecnicista, e não sendo formados
em diálogo com os conhecimentos específicos com que trabalham. Nos cursos
oferecidos, os conteúdos específicos não são atrelados aos conteúdos
pedagógicos das diversas áreas de conhecimento, mas simplesmente voltados à
técnica como um fim em si mesmo e não como meio para alcançar as propostas na
melhoria do ensino; neste caso, o de história.
No caso da escola pública, há sempre um forte apelo
ao Estado para ampliar e melhorar as políticas voltadas à educação; entre elas,
as relacionadas à formação continuada do professor. Isto é certamente válido e
necessário, pois o investimento na formação continuada do professor é um dos
caminhos para melhorar o ensino de história. Contudo, essa política só será
sólida se os programas contarem com a própria demanda dos professores e não por
imposição hierárquica, mas num sistema de construção conjunta de processos
formativos, em que os professores sejam ouvidos, suas experiências consideradas
e compartilhadas com o grupo e motivados a participar efetivamente dos
programas.
É neste sentido que esta pesquisa procurou
estimular um repensar no ensino de história, a partir da valorização da busca
pelo próprio professor e da importância de sua autonomia nesse processo para
fazer frente às mudanças tecnológicas que vêm ocorrendo em nossa sociedade e seus
múltiplos desdobramentos, especialmente ao se dar conta de seu envolvimento na
formação de pessoas também autônomas, dialogando com elas sobre a reprodução da
vida, as necessidades e incertezas vividas em sociedade.
Para que se efetive na prática esta sua autonomia,
é de suma importância que a escola rompa com a divisão dos saberes. E isto só é
possível a partir do momento em que se debata a importância da participação
desses professores e se tornem públicas as discussões com os setores dirigentes
para apresentar suas divergências e suas posições na busca de soluções
conjuntas. Sublinhamos, ainda, a necessidade de debates educacionais que
atinjam principalmente o âmbito da sala de aula, pois é nelas, diretamente
entre alunos e professores, que se constroem as relações mais essenciais ao
processo de ensino e aprendizagem.
Considerações finais
Com as pesquisas e a partir delas, pudemos entender
que a utilização dos computadores pelos professores de história nas escolas
investigadas tem ocorrido de forma alheia às necessidades da comunidade
escolar, principalmente por falta de condições de preparo antecipado dos
docentes para utilizá-los no processo de construção do conhecimento escolar de
história.
Um dos fatores que favorecem esta realidade envolve
também a responsabilidade do Estado em fornecer equipamentos tecnológicos às
escolas, acompanhada de uma boa formação historiográfica e metodológica do
professor para tal articulação. Isto porque, se o docente não tiver base sólida
da concepção de história que irá nortear seu trabalho em sala de aula e
conhecimento de como relacioná-la a uma metodologia definida, acabará limitando
as possibilidades de uso dessa ferramenta pedagógica no ensino da disciplina. A divulgação das propagandas
governamentais, pelos meios de comunicação, emprega um discurso que escamoteia
a realidade ao induzir a uma leitura de que todas as escolas estão equipadas
com computadores e à crença de um acesso geral e uniforme à internet.
Essas notícias não correspondem aos dados coletados
e analisados no universo da pesquisa e são pouco pertinentes ao contexto das
escolas investigadas, já que a maioria dos professores de história justificou a
não-utilização dessa ferramenta pedagógica, sobretudo em razão de sua
falta, tanto por conta de equipamento quanto de laboratório. O que se percebe neste processo é que a
implementação dos sistemas tecnológicos nas escolas não foi acompanhada, em
qualidade e quantidade, de um processo metodológico de formação dos professores
de história, desconsiderando sua condição de principais sujeitos do processo
pedagógico. Deve haver, então, uma retomada, por parte do Estado, desse
programa. Voltar o seu olhar prioritariamente para os docentes como correção de
rota no processo de inclusão das novas tecnologias, ou seja, propiciar
condições de trabalho ao inserir tais inovações na escola e não apenas ampliar
as responsabilidades dos professores sem o respaldo adequado para tal.
O que se propõe, portanto, é que os professores
aceitem o desafio de considerar essas transformações no contexto de sua prática
pedagógica, buscando a própria autonomia para estar à frente do seu tempo e,
sobretudo, para conduzir sua própria formação continuada, visto que as
tecnologias de comunicação e informação somente poderão contribuir se o professor
tiver uma formação teórico-metodológica de qualidade e se as informações forem
transformadas em conhecimento para ele e seus alunos, resultando na melhoria do
ensino, a partir da didática da história necessária à formação de pessoas
capazes de perceber a dimensão do humano a partir da leitura das humanidades.
* Cyntia Simioni França é Doutoranda em Educação pela
Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, Mestre em História Social pela
Universidade Estadual de Londrina – UEM e professora da Universidade Norte do
Paraná – UNOPAR.
* Cristiano
Biazzo Simon é Pós doutor pela
Universitat Autònoma de Barcelona, doutor e Mestre em História Social pela
Universidade de São Paulo – USP e professor da Universidade Estadual de
Londrina – UEL.
O Artigo completo (e as referências) estão disponíveis em:
http://www.revistas.udesc.br/index.php/tempo/article/view/2175180306122014186/3715
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